Relojoaria (Foto: Instagram)

Relojoaria (Foto: Instagram)

Sustentabilidade e ESG

Mercado da alta relojoaria sofre impacto com desvalorização de exemplares com diamantes

Entenda por que diamantes derrubam o valor de revenda de relógios de luxo

Diamantes encarecem a produção e o preço nas vitrines de luxo, mas no mercado secundário, a matemática não é tão simples. Dependendo do modelo, um relógio novo, original de fábrica e inteiramente cravejado de pedras preciosas acaba negociado por valores bem inferiores aos cobrados nas butiques oficiais.

Para o especialista em alta relojoaria Renan Bastos, o abismo entre o custo de produção e o real valor de mercado explica essa dinâmica de desvalorização.

“O diamante aumenta o preço cobrado pela fabricante porque existe o custo das pedras, da seleção e do trabalho de cravação. Mas, no mercado secundário, o relógio não é vendido pelo peso dos diamantes. Ele é vendido pela demanda que existe por aquela referência e por aquela configuração específica”, explica Renan Bastos em entrevista ao Feed TV.

A regra das butiques

Na alta relojoaria, a butique é o canal oficial onde a tabela impera. Já o mercado secundário nasce no momento em que a peça troca de mãos, mesmo sem nunca ter tocado um pulso. Um relógio intocado, com caixa e documentos, já entra nessa conta.

“O fato de um relógio estar novo não significa que ele continuará valendo o preço da boutique. Depois da primeira venda, quem passa a definir o preço é o mercado. Dependendo da procura, ele poderá valer mais ou menos do que o preço oficial”, afirma Renan Bastos.

Liquidez e a estética no pulso

Peças cravejadas de fábrica (factory set) mantêm a originalidade, mas esbarram em um funil apertado de clientes. Muitos investidores fogem do brilho excessivo, preferindo linhas esportivas ou tradicionais. Com a liquidez em baixa, o mercado força descontos. “Nem todo mundo gosta de diamantes no relógio. Algumas pessoas gostam de uma peça completamente cravejada, enquanto outras não usariam de maneira alguma. Quando você reduz o número de possíveis compradores, também pode reduzir a liquidez. É sempre a relação entre oferta e demanda que determinará o preço”, detalha o especialista.

Na prática, um Rolex Day-Date 40 (ref. 228348RBR) em ouro amarelo cravejado custa cerca de US$ 77.850 na loja. Fora dela, exemplares idênticos orbitam entre US$ 65 mil e US$ 75 mil. “É importante não comparar apenas o preço da boutique com um anúncio na internet. Existe o preço anunciado, o preço efetivamente negociado e o valor que um dealer pagaria para comprar o relógio imediatamente. São três números diferentes”, esclarece Bastos.

Renan Bastos (Foto: Acervo pessoal)
Renan Bastos (Foto: Acervo pessoal)

O abismo dos super-relógios e o prejuízo estratégico

Configurações extremas escancaram ainda mais as quedas imediatas. O cobiçado Richard Mille RM 67-01 Baguette bate a casa dos US$ 740 mil na tabela oficial. Recentemente, um modelo 2025 completo apareceu no mercado paralelo por US$ 515 mil.

“Não existe nenhum problema de autenticidade nesse caso. O relógio é original, os diamantes são de fábrica e a peça continua sendo extremamente valiosa. O que existe é uma diferença entre o preço construído pela fabricante e quanto o mercado está disposto a pagar por aquela configuração naquele momento”, pontua.

Se dá prejuízo, por que os milionários compram? Tudo se resume ao relacionamento com as marcas. Fabricantes restringem o acesso aos ícones da casa. Para ter direito a comprar a peça dos sonhos, o cliente precisa acumular histórico de consumo na loja, frequentemente absorvendo relógios menos desejados para liberar o portfólio restrito.

“Às vezes, o cliente compra um relógio sabendo que poderá perder US$ 100 mil se decidir revendê-lo. Mas essa compra pode ajudá-lo a receber outra referência pelo preço oficial que vale US$ 200 mil ou US$ 300 mil a mais no mercado secundário. Para entender a lógica, é necessário olhar para todo o relacionamento e não apenas para uma das peças”, explica. “Quando alguém vê um relógio praticamente novo sendo vendido abaixo do preço da boutique, pode pensar que o proprietário está simplesmente perdendo dinheiro. Talvez ele esteja perdendo naquela peça isoladamente, mas isso não significa que o resultado geral do relacionamento tenha sido negativo”, diz.

Originalidade contra customização Existe uma diferença gritante entre o factory set (original) e o aftermarket (customizado por terceiros). Adicionar diamantes por fora descaracteriza o relógio e anula a garantia oficial. Gastar US$ 20 mil em pedras paralelas não se traduz em valorização na revenda; o mercado frequentemente desconta o valor necessário para restaurar a peça à sua configuração original. “Uma coisa é um Rolex original com diamantes aplicados pela própria Rolex. Outra é um Rolex autêntico que recebeu os diamantes posteriormente. Os dois podem ser verdadeiros como relógios, mas não possuem a mesma configuração, a mesma originalidade e nem necessariamente o mesmo valor de mercado”, adverte.

Ainda assim, modelos factory set raros e fora de catálogo disparam de preço quando a demanda infla. “A pergunta não deve ser apenas quanto a fabricante cobra ou quanto foi gasto em diamantes. A pergunta mais importante é quanto alguém pagaria por esse relógio hoje. No mercado secundário, o valor sempre termina sendo definido pela oferta e pela demanda”, conclui Renan Bastos.

plugins premium WordPress