O governo federal anunciou nesta sexta-feira (25) novas medidas para endurecer as regras sobre as apostas online no Brasil, proibindo jogos virtuais e propondo penas para quem explorar ou divulgar as chamadas ‘bets’. A iniciativa reacende o debate sobre a relação entre apostas e saúde pública, especialmente o combate à ludopatia, o vício em jogos de azar.
Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam um aumento significativo nos atendimentos a pessoas com transtornos associados ao jogo. Em 2023, foram 2.262 casos, saltando para 3.490 em 2024 – um crescimento de 54%, segundo Marcelo Kimati, diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde. Entre janeiro e junho de 2025, outros 1.951 atendimentos foram registrados.
A ciência tem desvendado os mecanismos cerebrais por trás da ludopatia, uma condição médica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e classificada no Brasil pelos CIDs 10-Z72.6 e 10-F63.0. Pesquisas recentes indicam que, em pessoas com o transtorno, o cérebro reage com intensidade à antecipação de ganhos, mesmo antes de o resultado da aposta ser conhecido.
Um estudo publicado em 2026 na revista “Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging” registrou uma resposta cerebral mais forte à expectativa de vitória em indivíduos com transtorno do jogo. Quanto mais graves os sintomas, mais intensa era essa reação durante a espera pelo resultado.
Diante de uma aposta, o cérebro pondera chances de ganhar, riscos de perder e o valor em jogo. Áreas de planejamento e tomada de decisão interagem com circuitos de emoção, motivação e aprendizado. O estriado ventral, uma “central da expectativa”, e o núcleo accumbens, peça-chave do sistema de recompensa, são ativados. A ínsula, por sua vez, traduz risco e incerteza em sensações físicas de tensão e excitação, explica o neurologista Alan Eckeli, professor livre-docente de neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
A fase de espera foi o foco do estudo de 2026, que usou eletroencefalograma (EEG) em 26 pessoas com o transtorno e 54 voluntários sem diagnóstico. A principal diferença surgiu antes do resultado: o grupo com ludopatia reagiu com mais força à simples possibilidade de ganhar. Isso sugere que a força da aposta reside menos no prêmio e mais na pergunta “e se eu ganhar?”.
A dopamina, frequentemente associada ao prazer, tem um papel mais amplo, participando da motivação, aprendizado e da capacidade de valorizar sinais de recompensa. Imaginar uma vitória pode acionar o sistema de recompensa, afirma Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da USP.
Eckeli destaca o “erro de previsão de recompensa”, onde o cérebro compara o esperado com o real. Uma vitória inesperada, mesmo pequena, pode fixar o aprendizado mais do que um ganho previsto, o que explica o peso da incerteza nas apostas. No transtorno do jogo, o “querer” – o impulso de buscar a sensação de vitória – pode superar o “gostar” – o prazer imediato. Esse impulso se mantém mesmo quando o prazer diminui e os prejuízos financeiros e emocionais aumentam, explicando por que alguém continua apostando mesmo sem diversão.
A recompensa incerta, conhecida como reforço intermitente, mantém o jogador engajado. Pequenas vitórias surgem após perdas e são seguidas por novas derrotas, mantendo a expectativa acesa, segundo Eckeli. Ganhos mínimos, mesmo inferiores ao total perdido, servem de estímulo para continuar jogando.
O cérebro também pode interpretar um “quase ganhar” como progresso, ativando circuitos de recompensa e aumentando a vontade de apostar, apesar de matematicamente ser uma derrota. O estudo de 2026 mostrou que pessoas com o transtorno tiveram respostas cerebrais mais intensas diante de vitórias e “quase acertos”.
Um comportamento marcante é a “perseguição das perdas”: após perder dinheiro, a pessoa aposta novamente para tentar recuperar o prejuízo. Estresse, ansiedade, culpa e urgência dificultam a interrupção, com o sistema de desejo se impondo ao cálculo de perdas futuras.
As plataformas digitais intensificam o problema pela velocidade. Apostar, ver o resultado e apostar de novo leva segundos. Notificações, bônus, placares em tempo real e animações atuam como gatilhos. Com a repetição, até abrir o aplicativo ou ver o começo de uma partida pode despertar o desejo de apostar, alerta Eckeli.
Uma revisão sistemática publicada na revista “The Lancet Public Health” indicou que 15,8% dos usuários de cassinos online e caça-níqueis virtuais apresentavam jogo problemático, a taxa mais alta entre os formatos analisados.
Apesar de a maioria das pessoas que apostam não desenvolver o transtorno, o sinal de alerta é a perda de controle: tentar recuperar prejuízos, mentir sobre gastos, pegar dinheiro emprestado, negligenciar compromissos ou tentar parar sem sucesso, conforme Eckeli.
O transtorno do jogo é reconhecido como uma condição ligada a comportamentos aditivos. O tratamento pode incluir psicoterapia, avaliação de saúde mental, estratégias para dificultar o acesso impulsivo ao dinheiro e o envolvimento de familiares ou pessoas de confiança.








