A agricultura e o equilíbrio ambiental do Rio Grande do Sul enfrentam um personagem voraz e em rápida expansão: o javali. Nas regiões da Fronteira Sul, Campanha e Campos de Cima da Serra, a presença desses animais já resulta em perdas que chegam a 40% de produções de milho, soja e pomares. Dados do Ibama de 2025 apontam que o prejuízo se espalha por cerca de 200 municípios gaúchos, com destaque negativo para Alegrete, atual epicentro da crise.
Introduzidos na América do Sul no início do século 20 e disseminados com força a partir dos anos 80 — muitas vezes por fugas de criadouros ou solturas deliberadas —, os javalis não possuem predadores naturais no Brasil. Essa vantagem biológica, somada à alta taxa reprodutiva (uma fêmea pode gerar até 25 filhotes por ano), transformou a espécie em uma das cem piores invasoras do mundo, segundo a União Internacional de Conservação da Natureza.
O biólogo Richard Rasmussen alerta que o cruzamento com porcos domésticos gerou o “javaporco”, um híbrido ainda mais adaptável e agressivo. “Eles são onívoros agressivos, destroem a vegetação nativa e devoram ninhadas de aves e outros animais”, explica o especialista. Para conter o avanço em 2026, entidades agropecuárias estimam que seja necessário o abate de mais de 1,2 milhão de exemplares.
Riscos à saúde e regras de controle
Além do rastro de destruição no campo, o javali é uma bomba relógio sanitária. A Secretaria Estadual de Agricultura adverte que o animal é vetor de doenças graves como febre aftosa, peste suína clássica, leptospirose e toxoplasmose. Por essa razão, o consumo da carne de animais selvagens não é recomendado pelos órgãos oficiais.
O manejo é regulado pela normativa nº 12 do Ibama. Embora a caça indiscriminada seja proibida, o controle populacional é permitido sob regras rígidas:
- É autorizado o uso de armas de fogo e cães, desde que sem maus-tratos.
- É proibido o uso de venenos, armadilhas letais que firam o animal ou óleo queimado para atração.
- O transporte de animais vivos e a comercialização de produtos derivados são estritamente vetados.
Enquanto o Ibama foca no controle regulado, vozes como a de Francisco Milanez, diretor científico da Agapan, defendem medidas mais drásticas. “Infelizmente tem que exterminar. O meio ambiente sofre demais com a ação deles”, afirma o biólogo, destacando a ferocidade dos animais que “lavram” tudo o que encontram.
A nova ameaça: O Chital
Como se não bastasse o desafio dos javalis, um novo invasor começa a preocupar: o cervo uruguaio, ou Chital. Originário da Ásia, o animal foi introduzido em países vizinhos para caça e agora cruza as fronteiras brasileiras. O pesquisador Márcio Leite de Oliveira e o analista ambiental Luís Fernando Perelló monitoram a espécie, que já é vista em bandos na região de Vacaria. Embora menos agressivo que o javali, o Chital também causa danos severos às lavouras e compete com a fauna nativa.








