Terapia combinada para leucemia mieloide aguda chega ao SUS
O Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou um novo tratamento para adultos com leucemia mieloide aguda (LMA) recém-diagnosticada que não podem ser submetidos à quimioterapia intensiva. A decisão, publicada nesta segunda-feira (15) pelo Ministério da Saúde, inclui o uso do venetoclax em combinação com azacitidina. Esta medida visa expandir as opções terapêuticas disponíveis na rede pública para um grupo específico de pacientes.
A incorporação contempla indivíduos considerados inelegíveis para os esquemas convencionais mais agressivos de quimioterapia, geralmente devido à idade avançada, fragilidade clínica ou outras condições de saúde preexistentes. A portaria estabelece um prazo de até 180 dias para que as áreas técnicas do SUS efetivem a oferta deste tratamento em toda a rede pública de saúde, garantindo que os pacientes elegíveis tenham acesso à nova terapia.
A leucemia mieloide aguda é um câncer que se origina na medula óssea, o tecido responsável pela produção das células do sangue. A doença se manifesta quando células anormais começam a se multiplicar de forma descontrolada, comprometendo a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Conforme explicou o onco-hematologista Breno Gusmão, da Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Médico da Abrale, “as leucemias agudas são emergências clínicas porque se reproduzem de forma abrupta e exigem tratamento agressivo imediato”. O oncologista Thiago Kaique, da Rede Mater Dei, complementou que “a leucemia mieloide aguda é uma forma agressiva, que compromete a defesa do corpo e exige quimioterapia, imunoterapia ou até transplante de medula”. Os sinais mais comuns incluem cansaço intenso, palidez, febre persistente, infecções frequentes, hematomas espontâneos e sangramentos pelo nariz ou gengivas. A hematologista Joana Koury, membro do Comitê de Leucemias Agudas da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), alertou que “pequenos sangramentos, como no nariz ou na gengiva, além de infecções repetidas, são sintomas de alerta que levam o paciente a procurar ajuda médica”.
O diagnóstico da LMA geralmente começa com alterações identificadas no hemograma, sendo confirmado por exames da medula óssea, como o mielograma, e testes genéticos que auxiliam na identificação de mutações e na definição do tratamento mais adequado. Joana Koury ressaltou que “o cariótipo e outros exames moleculares ajudam a prever se o paciente vai responder bem à quimioterapia ou se há maior risco de recidiva. Isso não apenas define o subtipo, mas também direciona o tratamento”. O venetoclax, um dos medicamentos incorporados, pertence ao grupo das terapias-alvo, atuando no bloqueio de proteínas que auxiliam as células tumorais a sobreviver. Já a azacitidina interfere no crescimento e na multiplicação das células doentes. A combinação desses dois medicamentos tem se consolidado como uma das principais alternativas para pacientes que não toleram a quimioterapia intensiva, um cenário comum entre idosos e pessoas com outras comorbidades.
Atualmente, as abordagens terapêuticas para leucemia incluem quimioterapia convencional, terapias-alvo, imunoterapia, medicamentos orais específicos e o transplante de medula óssea. A onco-hematologista Sabrina Brant, do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, destacou que “nos últimos anos, tivemos avanços importantes, que permitem estratégias personalizadas”. Em alguns casos, especialmente entre pacientes mais jovens ou com maior risco de recaída, o transplante de medula óssea permanece como uma estratégia com potencial curativo. No entanto, Breno Gusmão alertou que “mesmo com doadores 100% compatíveis, há risco de rejeição. Por isso, o paciente precisa de imunossupressores por meses. É um equilíbrio delicado entre evitar rejeição e não deixar o organismo vulnerável a infecções”. Com a publicação da portaria, o venetoclax associado à azacitidina passa a integrar oficialmente o rol de tecnologias do SUS, com a expectativa de que sua oferta seja plenamente implementada nos serviços públicos de saúde nos próximos seis meses, ampliando as perspectivas de tratamento para pacientes com LMA.








