Pesquisa com Aedes aegypti explora cognição e não reflete uso natural
Um novo estudo realizado em laboratório demonstrou que mosquitos, especificamente o Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya, são capazes de aprender a associar o cheiro do repelente DEET à obtenção de alimento. A pesquisa, conduzida em ambiente controlado, revelou uma dimensão comportamental na interação dos insetos com o produto, considerado há décadas o padrão-ouro na proteção contra picadas. Este fenômeno, observado em condições experimentais, oferece novas perspectivas sobre a cognição dos mosquitos.
O DEET é reconhecido como uma das formas mais eficazes de prevenção contra picadas de insetos e doenças transmitidas por mosquitos. No entanto, o objetivo principal da pesquisa não era replicar situações da natureza, mas sim investigar as capacidades cognitivas desses insetos. Os autores do estudo enfatizam que não há evidências de que essa associação ocorra em populações naturais de mosquitos e consideram “extremamente improvável” que o fenômeno se manifeste nas condições normais de uso do repelente. Portanto, o estudo não indica que o DEET tenha perdido sua eficácia.
Para testar a hipótese de aprendizado, os cientistas realizaram experimentos onde mosquitos recebiam alimento repetidamente na presença do cheiro do DEET. Inicialmente, os insetos evitavam o odor do repelente quando uma fonte de sangue aquecido era oferecida. Contudo, após um treinamento específico – onde o cheiro do DEET era liberado nos segundos finais de cada alimentação com sangue aquecido, repetido por três vezes – mais de 60% dos mosquitos passaram a tentar se alimentar ao sentir apenas o odor do produto. Este comportamento sugere que os insetos aprenderam a associar o cheiro à expectativa de uma recompensa alimentar, em um mecanismo comparável ao experimento de Pavlov.
Os experimentos foram expandidos para verificar a influência desse aprendizado no comportamento dos mosquitos. Em um teste, mosquitos treinados foram expostos a duas mãos da pesquisadora Ayelén Nally, da Universidade de Buenos Aires: uma com DEET e outra sem. Os insetos demonstraram preferência pela mão com o odor do repelente, tentando picá-la. Outro teste, conduzido por Charly Dufour, da Universidade de Tours, utilizou açúcar como fonte de alimento, e os mosquitos também aprenderam rapidamente a associar o cheiro do DEET à refeição açucarada, reagindo com entusiasmo. O pesquisador David De Luca, também da Universidade de Tours, esteve envolvido na fase inicial de identificação dos sinais de atração dos mosquitos por alimento.
Apesar dos resultados observados em laboratório, os pesquisadores, incluindo Claudio Lazzari, da Universidade de Tours, que explicou ao g1 os detalhes da pesquisa, reiteram que o DEET continua sendo o principal repelente disponível e essencial para a proteção contra mosquitos e as doenças que transmitem. Lazzari enfatiza que o produto “salva vidas!” e que o aprendizado só ocorre sob condições muito específicas de laboratório, com exposições simultâneas e repetidas em curto período. A descoberta, no entanto, pode auxiliar no desenvolvimento de novos repelentes e estratégias mais eficazes de controle de mosquitos, ao reconhecer que esses insetos “não são robôs; são organismos vivos que podem se adaptar e processar informações do ambiente”, conforme destacado por Lazzari. O estudo sugere que o efeito do DEET pode estar ligado à informação que seu odor transmite, imitando compostos repelentes naturais, e que a experiência pode influenciar a resposta dos mosquitos.








