XCOPRI (cenobamato) pode mudar tratamento de crises epilépticas no Brasil.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu o registro para o medicamento XCOPRI (cenobamato), uma nova opção terapêutica destinada ao controle de crises de epilepsia grave no Brasil. A aprovação, anunciada pela farmacêutica Eurofarma, representa um avanço significativo para pacientes que enfrentam dificuldades no manejo de suas crises. A expectativa é que o produto esteja disponível no mercado brasileiro a partir de 2026, oferecendo uma nova perspectiva de tratamento.
A epilepsia é uma condição neurológica crônica que afeta uma parcela considerável da população brasileira, com cerca de uma em cada 50 pessoas convivendo com a doença, o que corresponde a aproximadamente 1% a 2% dos habitantes. Deste grupo, cerca de 30% dos pacientes, totalizando mais de um milhão de indivíduos, não conseguem controlar suas crises mesmo com o uso de medicamentos existentes. Este cenário ressalta a urgência por terapias mais eficazes e o impacto potencial do cenobamato.
Considerado uma das terapias mais avançadas globalmente para o controle de crises epilépticas, a chegada do cenobamato ao Brasil era aguardada há pelo menos três anos. O neurologista e professor de medicina da PUC-RS, William Martins, descreve a aprovação como uma “mudança de paradigma”. Segundo Martins, “a gente nunca teve um remédio tão eficaz e capaz de mudar a vida de quem tem epilepsia grave”, destacando que o medicamento demonstra eficácia tanto em pacientes que já passaram por cirurgia sem sucesso quanto naqueles que nunca foram submetidos ao procedimento.
O XCOPRI (cenobamato) atua regulando a atividade elétrica anormal e excessiva no cérebro, que é a causa das crises epilépticas. Sua ação se dá de duas formas principais: bloqueando canais de sódio nos neurônios, que são cruciais na propagação das crises, e aumentando a ação do GABA, um neurotransmissor que ajuda a “frear” a atividade cerebral. Em estudos clínicos com pacientes de epilepsia farmacorresistente, o medicamento conseguiu eliminar todas as crises em 20% dos casos, um índice notavelmente superior aos 1% a 5% alcançados por outros tratamentos disponíveis. Quando usado como terapia adjuvante, doses de 400 mg por dia resultaram em uma redução mediana de 65% na frequência de crises focais, enquanto 200 mg por dia reduziram em 55,6%.
A libertação das crises epilépticas pode transformar a vida dos pacientes, que frequentemente enfrentam riscos como morte súbita, dificuldades de socialização e limitações no trabalho e em atividades cotidianas. William Martins enfatiza que a ausência de crises permite que os indivíduos recuperem sua autonomia, possibilitando trabalhar com mais segurança, dirigir em alguns casos, praticar atividades físicas e viajar sem o medo constante de uma crise inesperada. O medicamento, desenvolvido em parceria com a empresa coreana SK Biopharmaceuticals e já aprovado em outros países da América Latina, será geralmente utilizado em combinação com outros anticonvulsivantes, com a decisão de uso sempre individualizada entre médico e paciente. O próximo passo para sua comercialização no Brasil é a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), enquanto a inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS) dependerá da avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) e do Ministério da Saúde.








