Daraxonrasib apresenta resultados inéditos em fase 3 e estabelece novo padrão de tratamento.
A comunidade médica global presenciou um momento de rara emoção em Chicago, no dia 1º de junho de 2026, durante a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o maior e mais influente congresso de oncologia clínica do mundo. A apresentação dos resultados do estudo RASolute 302, referente à pílula daraxonrasib para o tratamento de câncer de pâncreas metastático, levou médicos e pesquisadores às lágrimas e a uma ovação de pé, sinalizando um avanço considerado “impossível” até então.
Tradicionalmente, os auditórios da ASCO são palco de análises frias de dados e ceticismo metodológico, com pouca margem para demonstrações efusivas. Contudo, a eficácia do daraxonrasib, um comprimido oral desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines, que já havia divulgado resultados preliminares promissores em abril, superou as expectativas. A fase 3 do estudo, considerada a palavra final da ciência, confirmou o potencial do medicamento em pacientes que já não respondiam à quimioterapia convencional.
O estudo RASolute 302 seguiu o mais rigoroso padrão da medicina: um ensaio clínico randomizado de fase 3, envolvendo quinhentos pacientes. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos, um recebendo o daraxonrasib e outro a quimioterapia padrão, garantindo a eliminação de vieses. Os resultados foram considerados finais e revelaram que, no grupo de pacientes com a mutação RAS G12 — a mais comum no câncer de pâncreas —, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com o comprimido, em comparação com 6,6 meses para aqueles em quimioterapia. Isso representa uma queda de 60% no risco de morte.
Além disso, o tempo até a progressão da doença dobrou, passando de 3,5 meses com a quimioterapia para 7,3 meses com o daraxonrasib. Os resultados foram praticamente idênticos ao analisar o grupo total de pacientes, independentemente da mutação RAS. Mais de 31% dos pacientes que tomaram o comprimido tiveram redução mensurável do tumor, contra 11,2% no grupo de quimioterapia. Um dado notável foi a baixa toxicidade do daraxonrasib, com apenas 1,2% dos pacientes interrompendo o tratamento por efeitos colaterais, em contraste com 11,2% no grupo de quimioterapia. A conclusão dos pesquisadores, publicada no Journal of Clinical Oncology, é que o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha. Em declaração ao g1, o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, que estava presente na sessão, explicou a comoção: “Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença. O aplauso em pé foi merecido.”
O câncer de pâncreas é uma das doenças mais desafiadoras de tratar, caracterizado por um diagnóstico tardio, com cerca de 80% dos casos já em estágio avançado ou metastático. Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas são diagnosticadas anualmente, com 50 mil óbitos, enquanto no Brasil, são 13 mil novos diagnósticos e cerca de 12 mil mortes por ano. A sobrevida em cinco anos para a forma metastática é de apenas 3%. A resistência da doença está ligada à proteína RAS, que, quando mutada, promove o crescimento descontrolado das células tumorais e era considerada “intratável” pela medicina. O daraxonrasib conseguiu superar esse obstáculo, oferecendo 6,5 meses a mais de vida, em mediana, para pacientes sem outras opções após a quimioterapia.
O próximo passo para o daraxonrasib é a aprovação regulatória. A Revolution Medicines confirmou que submeterá os dados à Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA). O medicamento já possui o status de Breakthrough Therapy, designação de medicamento órfão e foi selecionado para o programa National Priority Voucher, o que acelera o processo de revisão. O acesso compassivo já está autorizado nos Estados Unidos. No entanto, para o Brasil, o horizonte é mais distante, exigindo a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, para o sistema privado, uma diretriz de utilização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No sistema público, o custo elevado do medicamento, que pode chegar a dez mil dólares por mês no mercado americano, representa um grande obstáculo financeiro. Não há previsão concreta de quando o acesso ao daraxonrasib estará disponível no Brasil a curto prazo. Stephen Stefani reitera a importância do avanço: “O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada: a de oferecer ganho real em sobrevida a pacientes que, até agora, tinham poucas alternativas.”








