Relatório mundial da felicidade aponta impactos negativos e positivos
O uso intensivo de redes sociais está diretamente associado a uma redução no bem-estar e na felicidade de jovens, conforme revelado pelo Relatório Mundial da Felicidade de 2026. Publicado nesta quinta-feira (19/3), o documento é resultado de um amplo estudo global que consultou adolescentes de 15 anos em 50 países. A pesquisa aponta que, embora as redes sociais ofereçam benefícios em certos contextos, o uso excessivo tem um impacto negativo significativo na satisfação geral com a vida dos mais novos.
O relatório, elaborado pelo Centro de Pesquisa sobre Bem-estar da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a Gallup Data Poll, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e um conselho editorial independente, detalha que os efeitos dessa “significativa queda no bem-estar” variam conforme o tipo de plataforma, a forma de uso e fatores demográficos, como nível socioeconômico e gênero. Curiosamente, jovens que utilizam redes sociais por menos de uma hora diária apresentam os níveis mais elevados de bem-estar, superando até mesmo aqueles que nunca se conectam. Contudo, a média de uso entre adolescentes é de 2,5 horas por dia.
O impacto negativo é particularmente acentuado entre as jovens do sexo feminino. Meninas que utilizam mídias sociais por até uma hora diária relataram maior satisfação com suas vidas em comparação com usuárias frequentes, com a satisfação diminuindo progressivamente à medida que as horas de uso aumentam. Pesquisas anteriores, citadas no relatório, já indicaram que plataformas como o Instagram podem agravar a imagem corporal, elevar os níveis de ansiedade e depressão, e prejudicar a autoconfiança. Em resposta a essas preocupações, diversos países têm discutido ou implementado restrições: a Austrália, em dezembro, elevou a idade mínima para 16 anos em dez plataformas, a Espanha planeja proibir o acesso para menores de 16 anos, e legisladores franceses deram o primeiro passo para vetar o uso para adolescentes de até 15 anos.
De acordo com Jan-Emmanuel De Neve, diretor do Centro de Pesquisa sobre Bem-estar da Universidade de Oxford, “O uso excessivo está associado a um bem-estar significativamente menor, mas aqueles que optam deliberadamente por ficar longe das redes sociais também parecem estar perdendo alguns efeitos positivos”. O relatório especifica que plataformas baseadas em conteúdo selecionado por algoritmos, com foco em imagens e influenciadores, tendem a apresentar uma relação negativa com o bem-estar. No entanto, há exceções notáveis: redes sociais projetadas para facilitar conexões sociais mostram uma clara relação positiva com a felicidade em sete países da América Latina, incluindo o Brasil. A região registrou um elevado nível de bem-estar entre os jovens, mesmo com uso intenso de mídias sociais, o que De Neve atribui aos “laços familiares e sociais fortes, mais do que em outros lugares”, em contraste com a juventude no Reino Unido e na Irlanda, que se mostrou mais infeliz do que o esperado para seu padrão de uso.
No contexto nacional, o Brasil viu entrar em vigor na terça-feira a lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), focada na proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. No ranking geral de felicidade do relatório, que classificou 147 países com base em respostas de 100 mil participantes, a Costa Rica deu um salto notável, passando do 23º lugar em 2023 para o 4º lugar neste ano. O Brasil ficou na 32ª posição, à frente de nações como França, Itália, Argentina, Colômbia e Portugal, enquanto a Alemanha ocupou a 17ª posição. A Finlândia manteve a liderança pelo nono ano consecutivo, com outros quatro países nórdicos (Islândia, Dinamarca, Suécia e Noruega) entre os seis mais felizes, resultado atribuído à riqueza, igualdade, sistemas de bem-estar social e alta expectativa de vida. Os últimos colocados, por sua vez, são países que enfrentam guerras ou estão próximos delas, como a República Democrática do Congo, Líbano, Iêmen, Serra Leoa e Afeganistão.