Apesar de crenças populares que circulam em conversas de casal e nas redes sociais, não há comprovação científica de que o abacaxi ou qualquer outro alimento adoeçam ou mudem de forma direta o gosto da região íntima ou o sabor do sêmen. No Dia Internacional do Sexo, celebrado em 6 de setembro, ginecologistas explicam que a resposta está no funcionamento global do corpo, e não no cardápio.
Relação indireta com a alimentação
Segundo Raquel Magalhães, ginecologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, a comida não atua de maneira direta sobre o cheiro ou o gosto das secreções. O que ocorre é uma interferência indireta no pH e no ambiente biológico.
Dietas carregadas de açúcares e carboidratos refinados podem modificar o ambiente das mucosas. Nas mulheres, o excesso de glicogênio favorece desequilíbrios da flora vaginal, como a candidíase. O alimento não “adoça” a secreção, mas cria um terreno propício a alterações.
O raciocínio se estende ao sêmen, que tem pH alcalino e composição influenciada por hidratação, saúde metabólica, consumo de álcool, tabagismo e hábitos alimentares em conjunto, sem reação imediata a itens específicos. “Beber água na quantidade certa e manter uma alimentação equilibrada pesa muito mais do que qualquer alimento tomado isoladamente”, afirma a médica.
A ginecologista e obstetra Vanessa Cairolli reforça que o organismo não opera em compartimentos isolados e a alimentação influencia o corpo inteiro, mas nunca de maneira imediata.
O que define cheiro e gosto
Os fluidos corporais refletem o funcionamento global do organismo a partir de vários fatores:
- Microbiota: O balanço de bactérias nas mucosas.
- Hormônios: Oscilações que mexem na sudorese e nos fluidos.
- Hidratação: Líquidos mais concentrados geram odores mais intensos.
- Hábitos e estilo de vida: Álcool, tabagismo, estresse, sono e inflamações.
- Higiene: Uso excessivo de produtos que alteram o pH.
Odores naturais e sinais de alerta
Ter cheiro próprio não é problema. As secreções variam ao longo do ciclo menstrual, após a relação sexual ou conforme a hidratação.
O sinal de alerta surge quando o odor é intenso, persistente e acompanhado de dor, coceira, ardor, corrimento atípico ou desconforto no sexo. Nestes casos, a origem costuma ser clínica e exige avaliação médica.
O perigo das duchas e truques caseiros
As especialistas desaconselham duchas íntimas e receitas caseiras para mascarar odores antes da relação. Essas práticas alteram o pH, desequilibram a microbiota e aumentam o risco de infecções.
A higiene adequada exige cuidados simples na parte externa, com água e sabonete neutro. Outras medidas que ajudam incluem boa hidratação, uso de roupas de algodão, evitar umidade prolongada, atenção aos absorventes, uso criterioso de probióticos e consultas ginecológicas regulares.
Pressão estética e impacto no desejo
Por trás da busca por um corpo sem cheiro ou gosto, há uma pressão estética direcionada quase exclusivamente às mulheres. A psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar pela Unifesp, aponta que padrões estéticos e a pornografia impõem a imagem de um corpo sem secreções e sem odor.
Essa cobrança gera tensão, medo de desagradar o parceiro e rituais de limpeza exagerados. Ocupada em se avaliar, a mulher se distancia da própria experiência e o sexo vira desempenho, produzindo ansiedade e vergonha.