O Biotônico Fontoura, um fortificante que se tornou um ícone da infância brasileira ao longo do século 20, passou por uma significativa alteração em sua composição há 25 anos. A mudança ocorreu após uma determinação do governo federal que proibiu a presença de álcool em tônicos e estimuladores de apetite. Originalmente criado em 1910 no interior paulista, o produto continha 9,5% de etanol, uma graduação alcoólica comparável à de um vinho espumante.
A história do Biotônico Fontoura reflete um período distinto da saúde pública no Brasil. No início do século passado, a maioria dos medicamentos era produzida artesanalmente por farmacêuticos, conhecidos como boticários, em seus próprios estabelecimentos. O farmacêutico Cândido Fontoura Silveira (1885-1974) desenvolveu a fórmula inicial, composta por fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol, para auxiliar sua esposa, Elvira Siqueira de Castro, que sofria de fraqueza. Esse contexto era marcado por alta incidência de desnutrição e verminoses, como a ancilostomose, que causavam sintomas de fraqueza e palidez na população.
A popularidade do fortificante ganhou um impulso crucial em 1916, quando Cândido Fontoura se aproximou do escritor e fazendeiro Monteiro Lobato (1882-1948). Após experimentar o produto e ficar fascinado com os resultados em seu próprio cansaço e fadiga, Lobato tornou-se um entusiasta divulgador e teria sugerido o nome “Biotônico”, o “tônico da vida”, combinado com o sobrenome do criador. Inicialmente, a comercialização era improvisada, com frascos não padronizados e rótulos desenhados à mão. Posteriormente, a Litografia Ipiranga produziu os icônicos rótulos verdes, que estampavam o slogan “Regenera o sangue, tonifica os músculos, fortalece os nervos”.
A parceria com Monteiro Lobato se aprofundou com a aquisição dos direitos do personagem Jeca Tatuzinho, uma versão do Jeca Tatu que, após se tratar de verminoses, ensinava noções de higiene. Essa estratégia de “branded content” foi pioneira, transformando o personagem no garoto-propaganda do Biotônico e consolidando a marca no imaginário popular. Outra iniciativa de marketing de sucesso foi o Almanaque do Biotônico Fontoura, uma revistinha anual gratuita que oferecia conteúdo educativo, curiosidades e entretenimento, com tiragens que chegaram a 100 milhões de exemplares em 1982. A marca também investiu em jingles memoráveis e contou com o endosso de celebridades como Pelé (1940-2022), Xuxa e Sandy & Júnior. Culturalmente, o produto transcendeu a condição de medicamento, integrando receitas populares como a mistura com ovos de pata e leite condensado, vista como um suplemento calórico.
A proibição do álcool na fórmula do Biotônico Fontoura, há 25 anos, foi uma medida da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para evitar problemas de saúde e a propensão ao alcoolismo em crianças. Segundo o farmacêutico Eder de Carvalho Pincinato, o álcool atuava como solvente e conservante, enquanto o médico José Roberto da Costa Pereira sugere que ele provocava irritação gástrica, estimulando o apetite. Especialistas como a farmacêutica Rosane Gomez e a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira ressaltam que não há evidências científicas de que o produto estimule o apetite, e que seu único componente ativo comprovado é o sulfato ferroso, para anemia ferropriva. A Hypera Pharma, atual detentora da marca desde 2007, realizou outras atualizações, como a troca do sulfato ferroso por bisglicitano ferroso em 2021, para melhor absorção, e a introdução de novos sabores, como uva e morango, desde 2017, sempre recomendando o uso conforme o rótulo e orientação profissional.