O Tribunal do Júri é o palco onde a sociedade toma a decisão mais difícil: definir o destino de alguém, na linha tênue entre a culpa e a inocência. É justamente desse ambiente de alta tensão, sem filtros para o drama humano, que surge a inspiração literária de Daniel Tonetto.
Com mais de duas décadas de atuação como advogado criminalista, Daniel Tonetto acumula em seu currículo a marca de 250 julgamentos. Esse número vai muito além de uma simples estatística de carreira. Ele reflete uma exposição contínua às fraturas familiares e comunitárias que os crimes provocam na vida real.
Para lidar com o desgaste emocional e a constante ambiguidade moral do sistema penal brasileiro, a escrita surgiu em sua rotina como uma verdadeira válvula de escape. O que no início era uma forma pessoal de organizar os sentimentos e sobreviver à repetição da violência evoluiu para um projeto literário sólido, profundamente conectado à observação da realidade.
Nas páginas escritas pelo criminalista, o delito não é o centro isolado da narrativa. A trilogia “Crime em Família” evidencia essa dinâmica ao deslocar o foco para as consequências do ato, mostrando como o impacto da Justiça atinge pessoas que estão muito além do banco dos réus. Não espere encontrar heróis fáceis ou vilões unidimensionais nos livros de Daniel Tonetto; as histórias entregam personagens repletos de contradições, espelhando as zonas cinzentas que ele presencia nos plenários.
Em seu romance mais recente, “A cor que nos separa”, a narrativa aprofunda essa visão ao abordar os vínculos familiares e as duras marcas deixadas pela exclusão social. Sem transformar o Direito em um espetáculo vazio, Daniel Tonetto utiliza a ficção para dar rosto, voz e humanidade aos dramas reais que as pesadas pilhas de processos costumam esconder.