Quase 50% das áreas úmidas da Amazônia permanece fora de territórios com proteção legal, aponta um estudo inédito que mapeou cerca de 77 milhões de hectares desses ecossistemas no bioma. A pesquisa foi conduzida por especialistas do Imazon, ICMBio, Instituto Socioambiental (ISA) e EcoSaMa.
De acordo com o levantamento, apenas 53,7% das áreas úmidas amazônicas contam com algum tipo de proteção. Desse total, 21,3% estão inseridas em unidades de conservação, 15,4% localizam-se em terras indígenas, 3% correspondem a Sítios Ramsar, áreas reconhecidas internacionalmente por sua importância ambiental e 14% estão em regiões onde diferentes categorias de proteção se sobrepõem.
As áreas úmidas ocupam a zona de transição entre a terra firme e os ambientes aquáticos e incluem ecossistemas como manguezais, florestas de igapó, várzeas e turfeiras. Fortemente ligadas à dinâmica da água, essas áreas figuram entre as mais sensíveis aos efeitos das mudanças climáticas, além de sofrerem impactos diretos de atividades como desmatamento, barragens, crescimento urbano e exploração mineral.
De acordo com os pesquisadores, a criação e ampliação de áreas destinadas à conservação é considerada estratégica, já que esses territórios desempenham funções ecológicas fundamentais, abrigam elevados estoques de carbono, preservam a biodiversidade e asseguram o fornecimento de água e alimentos para as populações que dependem desses ecossistemas.
Diante do avanço acelerado das mudanças climáticas, desconsiderar a importância das áreas úmidas tende a ampliar os riscos para a Amazônia e para as populações que dependem diretamente desses territórios para sua subsistência e equilíbrio ambiental.
A principal ameaça apontada é a hidrelétrica
As hidrelétricas despontam como a principal fonte de pressão sobre as áreas úmidas da Amazônia. Segundo o estudo, mais de 1 milhão de hectares desses ecossistemas estão expostos a ameaças diretas. Entre os fatores de maior impacto, os empreendimentos hidrelétricos concentram a maior área afetada, com cerca de 600 mil hectares de superfícies alagadas associadas a usinas já identificadas no bioma.
As barragens destinadas à produção de energia elétrica e ao armazenamento de água provocam efeitos adversos sobre as áreas úmidas, ao modificar o regime dos rios e interferir no ciclo natural de cheias e vazantes, comprometendo o equilíbrio desses ecossistemas.
O desmatamento aparece como a segunda maior ameaça, tendo atingido cerca de 290 mil hectares de áreas úmidas na Amazônia entre 2020 e 2024. Parte desses ecossistemas, como manguezais e turfeiras, concentra estoques de carbono por hectare superiores aos das florestas terrestres, o que agrava os impactos de sua degradação sobre o bioma. No caso específico das turfeiras, a perda de cobertura vegetal também intensifica a liberação de metano, ampliando os efeitos sobre o clima.
Garimpo também é ameaça às áreas da Amazônia
O avanço do garimpo também figura entre as ameaças mais severas às áreas úmidas da Amazônia. Entre 2020 e 2024, a atividade atingiu cerca de 53 mil hectares desses ecossistemas, provocando a contaminação de rios, fauna e comunidades tradicionais pelo mercúrio, metal classificado pela Organização Mundial da Saúde como altamente tóxico.
A contaminação de peixes ocorre principalmente pelo metilmercúrio, formado a partir da transformação do mercúrio nos ecossistemas aquáticos. Coletas realizadas em peixes de 17 municípios da Amazônia brasileira apontam níveis do metal 21,3% acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde.
Soluções para Amazônia
Os Sítios Ramsar, áreas úmidas de importância internacional protegidas por um tratado de 1971, do qual o Brasil é signatário desde 1993, são apontados como uma das estratégias mais eficazes para preservar a biodiversidade, assegurar recursos hídricos e combater os efeitos das mudanças climáticas. Atualmente, o país conta com 27 Sítios Ramsar, sendo 10 localizados na Amazônia, que juntos abrangem 23 milhões de hectares.
O aquecimento global ameaça diferentes tipos de áreas úmidas de maneiras distintas: enquanto as zonas úmidas costeiras correm risco de desaparecer devido à elevação do nível do mar, as áreas úmidas interiores podem atingir pontos de não retorno em razão de secas extremas recorrentes. Pesquisadores avaliam que as áreas úmidas da Amazônia podem funcionar como indicadores precoces de risco, sinalizando que o bioma já pode estar se aproximando de limites críticos de vulnerabilidade.








