Sarampo (Foto: Magnific)

Sarampo (Foto: Magnific)

Saúde

Sarampo: Brasil falha em meta de vacinação e surtos vizinhos acendem alerta

Nenhum estado alcança 95% de crianças imunizadas e casos aumentam na América Latina

O Brasil luta para manter seu status de país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado em novembro de 2024, em um cenário onde nenhum estado brasileiro atingiu a meta de vacinação de 95% de crianças menores de 2 anos com duas doses anuais. A situação é agravada por surtos significativos em países vizinhos e nos Estados Unidos, acendendo um alerta para o risco de novos surtos no território nacional.

Atualmente, a cobertura vacinal completa com as duas doses da tríplice viral – que protege contra sarampo, caxumba e rubéola – está abaixo de 80% no país. Este índice é considerado insuficiente para impedir a circulação sustentada do vírus, um dos mais contagiosos existentes. Em 2024, a cobertura da segunda dose para crianças de até 5 anos alcançou 91%, ainda aquém da meta de 95%, conforme destacou Eder Gatti, diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI).

As disparidades regionais são notáveis. Em 2026, os estados com os melhores índices de cobertura foram Paraná (86,76%), Ceará (86,69%) e Minas Gerais (86,05%). Os piores resultados foram registrados no Amapá (63,59%), Pará (67,02%), Maranhão (69,66%) e Rio de Janeiro (69,74%). Em 2025, Paraná (89,92%) e Minas Gerais (87,62%) lideraram, enquanto Pará (58,25%) e Goiás (58,59%) apresentaram os menores índices.

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A preocupação aumenta com o avanço da doença em países vizinhos, que somam mais de 20 mil casos. O Peru registra cerca de 3 mil casos, e a Bolívia vive uma situação de descontrole, segundo Gatti. Diante disso, o Ministério da Saúde foca em reforçar a vigilância e intensificar a vacinação com a tríplice viral em municípios fronteiriços com o Peru, na região oeste do Amazonas.

Embora o Brasil não tenha transmissão sustentada, casos importados continuam a ser identificados. Em 2025, foram 39 casos, e em 2026, já são mais de 50, a maioria em São Paulo, segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). O último caso autóctone foi em junho de 2022, no Amapá. Kfouri ressalta que “é inexorável a entrada de pessoas com sarampo aqui no país, já que o deslocamento populacional, milhares de pessoas vêm desses países vizinhos diariamente por fronteiras secas, aéreas, rodoviárias”.

A situação nos Estados Unidos serve de alerta. O país enfrenta um dos piores cenários em décadas, com mais de 3,6 mil casos e cinco mortes em 2026. Em outubro, Nova York declarou estado de emergência. A pediatra Flavia Bravo, diretora da SBIm, adverte: “A redução da imunização, ainda que pareça uma taxa mínima, tem resultados sem precedentes, como o que estamos vendo. O país criou uma multidão de pessoas suscetíveis e que hoje são crianças e adultos vulneráveis ao vírus”.

Especialistas apontam a desinformação como um dos principais fatores para a queda na vacinação, incluindo a disseminação de informações falsas sobre a segurança dos imunizantes. Dificuldades de acesso aos serviços de saúde e a baixa percepção sobre a gravidade do sarampo também contribuem. Kfouri enfatiza: “É fundamental que a nossa geração, que não viveu esse período de circulação, que não conhece a doença, saiba disso. Isso vale também para os profissionais da saúde”.

O sarampo pode causar complicações graves como pneumonia, otite média aguda e encefalite, que podem levar à perda auditiva, sequelas neurológicas e até à morte. A doença também pode provocar “amnésia imunológica”, tornando o indivíduo mais vulnerável a outras infecções por meses após a recuperação.

A prevenção se dá pela vacinação com a tríplice viral. O Calendário Nacional de Vacinação prevê a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses. Pessoas de 5 a 29 anos devem ter duas doses documentadas, e de 30 a 59 anos, pelo menos uma. Duas doses garantem proteção acima de 97% contra a doença. “Quanto mais vacinados nós tivermos, eles acabam funcionando como barreira e impedindo a disseminação do vírus”, conclui Kfouri.

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