O índice de massa corporal (IMC) elevado superou a pressão alta e se tornou, em 2023, o principal fator de risco à saúde dos brasileiros. A constatação é de um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, elaborado a partir do Estudo Global de Carga de Doenças (GBD), coordenado pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME), da Universidade de Washington, em colaboração com cerca de 200 pesquisadores brasileiros.
Em 1990, o excesso de peso ocupava a sétima posição no ranking de riscos. Ao longo de mais de três décadas, o Brasil conseguiu reduzir as mortes por infarto e acidente vascular cerebral (AVC) – fatores que impulsionaram a expectativa de vida –, principalmente pelo controle da hipertensão e pela queda na proporção de fumantes, que caiu de um terço para pouco mais de um décimo da população. Em contrapartida, o IMC elevado e a glicose alta foram os índices que menos recuaram, e as doenças do coração ultrapassaram o AVC como a principal causa de mortalidade no país.
A pesquisa mede o impacto de fatores de risco sobre mortes precoces e anos vividos com incapacidade. Casos como o do aposentado Martino Galliano, de 57 anos, ilustram o desafio da doença crônica. Galliano chegou a 172 kg e, aos 130 kg, descobriu em um exame de rotina que estava com 98% de obstrução no tronco da coronária esquerda. Ele passou por cirurgia em 2013, eliminou 80 kg durante a reabilitação física, mas recuperou peso após a pandemia e sofreu um infarto em 2022, necessitando de angioplastias para colocação e reposicionamento de stents.
Segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Famerp, o ganho de peso pós-emagrecimento reflete o comportamento biológico da obesidade. O especialista pontua que o organismo atua para recuperar o maior peso já atingido, além de destacar que entre 70% e 75% dos obesos apresentam hipertensão. O vaivém do peso, por si só, também atua como agravante cardiovascular.
O cardiologista Felix Ramires, coordenador da Cardiologia do Hospital Samaritano Paulista, alerta para os perigos do avanço assintomático, conhecido como isquemia silenciosa, frequente em diabéticos ou pessoas com resistência à insulina. Ramires ressalta que a gordura abdominal é a mais agressiva à saúde vascular e que circunferências de cintura acima de 88 centímetros para mulheres e 102 centímetros para homens indicam obesidade visceral. O médico recomenda exames de rotina como glicemia, colesterol, hemoglobina glicada e tomografia de escore de cálcio.
Os pesquisadores apontam que a obesidade demorou a receber o mesmo tratamento dispensado a outras enfermidades, somando-se a barreiras socioeconômicas no acesso a alimentos saudáveis frente aos ultraprocessados. O estudo relata ainda que o programa Farmácia Popular, essencial na distribuição de medicamentos gratuitos para os mais pobres, perdeu recursos entre 2018 e 2022, sendo retomado em 2023. Diante desse cenário, os autores defendem que a prevenção e o controle contínuo da obesidade sejam tratados como prioridades no plano nacional contra doenças crônicas.