No dia 18 de junho é celebrado o Dia do Orgulho Autista. O movimento surgiu como reação histórica ao preconceito enfrentado por pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), frequentemente excluídas socialmente, infantilizadas ou tratadas como incapazes. A defesa de respeito, dignidade e inclusão representa um avanço importante e necessário.
Mas existe um ponto que não deveria desaparecer do debate público: combater preconceito não significa negar sofrimento, prejuízos funcionais ou necessidade de tratamento adequado.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Suas manifestações são extremamente heterogêneas, variando desde pessoas com elevada autonomia até indivíduos que necessitam de suporte intenso ao longo de toda a vida.
As estimativas mais recentes indicam que aproximadamente 2,3% das crianças de 8 anos nos Estados Unidos e cerca de 2,2% dos adultos preenchem critérios para TEA. O aumento expressivo das taxas de diagnóstico nas últimas décadas parece estar relacionado principalmente à ampliação dos critérios diagnósticos, maior conscientização pública e aprimoramento dos instrumentos de rastreio e avaliação.
Ao mesmo tempo, o crescimento da discussão pública sobre neurodiversidade trouxe contribuições importantes para a redução do estigma. Muitas pessoas passaram a compreender o autismo para além de caricaturas antigas marcadas por preconceito, institucionalização e exclusão. Esse avanço social é relevante e deve ser preservado.
O problema surge quando o esforço legítimo de combater o capacitismo passa a transformar sofrimento, limitação funcional e necessidade de suporte em temas quase proibidos. Existe uma diferença importante entre defender dignidade e neutralizar a dimensão clínica do transtorno.
Talvez valha uma pergunta desconfortável: se estivéssemos falando apenas de uma diferença neutra de funcionamento, como explicar o sofrimento descrito por tantos adultos diagnosticados tardiamente? Quantos passaram décadas se achando “estranho”, “difícil”, “frio” ou “mal-educado”, acumulando isolamento, fracassos sociais e sensação persistente de inadequação sem acesso a avaliação especializada?
Nem todo sofrimento associado ao autismo pode ser explicado apenas pelo preconceito social. Embora o estigma frequentemente amplifique dificuldades, muitos indivíduos apresentam limitações significativas de comunicação, flexibilidade comportamental, autonomia e regulação emocional mesmo em contextos acolhedores e adaptados. Reduzir o TEA a uma simples variação neutra da neurodiversidade ignora uma parte importante da experiência clínica observada diariamente em consultórios, escolas e famílias.
As melhores evidências disponíveis mostram, inclusive, que o autismo raramente aparece de forma isolada. Cerca de metade das pessoas autistas também apresenta TDAH, enquanto ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos ocorrem em frequência significativamente maior do que na população geral. Além disso, dificuldades sensoriais, rigidez cognitiva e prejuízos adaptativos podem comprometer de maneira importante a vida acadêmica, profissional, afetiva e social.
Parte desse sofrimento não está apenas nas características do transtorno em si, mas também no atraso do reconhecimento adequado. Muitas pessoas passam anos recebendo diagnósticos parciais ou tratamentos voltados apenas para sintomas secundários, sem que a condição de base seja identificada. Isso ajuda a explicar por que tantos adultos relatam uma sensação tardia de compreensão sobre a própria trajetória após o diagnóstico.
Outro aspecto frequentemente negligenciado nas discussões públicas é o impacto sobre as famílias. Muitos pais passam anos tentando compreender dificuldades relacionadas à comunicação, alterações sensoriais, seletividade alimentar, rigidez comportamental, dificuldades escolares e sofrimento emocional intenso sem orientação adequada. Em muitos casos, o desgaste é ampliado pela dificuldade de acesso a serviços especializados e pela circulação de informações simplificadas ou contraditórias.
Sustentar duas ideias ao mesmo tempo talvez seja o maior desafio desse debate. Pessoas autistas não devem ser tratadas como inferiores, incapazes ou definidas exclusivamente pelo diagnóstico. Mas também não ajuda transformar sofrimento, limitação funcional e necessidade de suporte em aspectos invisíveis para evitar qualquer associação com a ideia de transtorno.
Reconhecer o autismo como uma condição clínica não reduz a dignidade de ninguém. Pelo contrário. Para muitas pessoas, é justamente o reconhecimento adequado que permite acesso a tratamento, adaptações, acolhimento e compreensão de dificuldades que permaneceram invisíveis durante anos.
Dra. Lara d’Almeida é psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento. Atua há mais de 15 anos na área da saúde mental, com foco em TDAH, regulação emocional e transtornos do neurodesenvolvimento. Possui experiência na clínica, no SUS, na rede suplementar e privada, além da formação de profissionais e da divulgação científica baseada em evidências. Seu trabalho se destaca pela tradução acessível de temas complexos da saúde mental para o público geral.








