O Brasil vai testar em humanos, pela primeira vez, uma vacina desenvolvida integralmente com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). O imunizante contra a Covid-19, concebido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar à fase de estudos clínicos.
A aprovação marca a primeira ocasião em que cientistas brasileiros levam uma terapia de mRNA do ambiente laboratorial para testes em seres humanos. Segundo os especialistas envolvidos, o avanço consolida a autonomia científica nacional, uma vez que tanto a estrutura genética quanto as nanopartículas lipídicas que envolvem o RNA foram elaboradas no país, dispensando a importação ou o licenciamento de laboratórios internacionais.
O recrutamento dos voluntários para a Fase 1 está previsto para o primeiro trimestre de 2027, dependendo da validação do protocolo pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Os participantes serão acompanhados pelo período de um ano. A fórmula é projetada para atuar contra as variantes atuais do coronavírus, contemplando as exigências mais recentes da Anvisa.
“Isso é um grande marco para o Brasil, para que a gente se posicione como líder da biotecnologia na América Latina nessa área. É um marco para a soberania do país e para a pesquisa brasileira”, afirmou Patrícia Neves, pesquisadora da Fiocruz e uma das líderes do projeto.
Investimentos e novas terapias
Para impulsionar a tecnologia, o Ministério da Saúde anunciou um aporte de R$ 210 milhões direcionado a projetos na Fiocruz, no Instituto Butantan e no Centro de Tecnologia de Vacinas (CT-Vacinas), em Minas Gerais. Desde 2021, a Fiocruz atua como centro de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o desenvolvimento e produção de vacinas de mRNA na América Latina e no Caribe.
“A pesquisa brasileira pode ser capaz de competir internacionalmente, produzindo inovação e desenvolvimento tecnológico no país. O mRNA pode abrir centenas de oportunidades que ainda não foram abertas e o objetivo é dominar esse conhecimento”, declarou Fernanda Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde da pasta.
Por funcionar como uma plataforma que envia instruções genéticas às células corporais, a tecnologia pode ser adaptada para diversas enfermidades alterando-se apenas a sequência genética utilizada. Laboratórios nacionais já conduzem estudos com mRNA voltados a outros alvos biológicos:
- Tratamento oncológico: Testes em animais demonstraram que células tumorais instruídas por mRNA a produzir uma proteína específica tiveram redução de até 85% no volume de tumores sólidos, incluindo câncer de cólon.
- Aprimoramento do CAR-T: Pesquisas buscam utilizar a mesma nanopartícula para dispensar a necessidade de extrair e modificar em laboratório as células de defesa do paciente, simplificando a terapia.
- Outras doenças: Estudos incluem imunizantes contra dengue, malária e doença de Chagas.
De acordo com a pesquisadora Santuza Teixeira, do CT-Vacinas e do Centro de Competência Embrapii, os resultados consolidam o potencial da pesquisa local. “As pessoas acham que fazer tratamentos complexos com mRNA pode ser algo que só as pessoas nos Estados Unidos podem fazer. Para além da vacina, todas essas pesquisas são brasileiras. O Brasil tem uma ciência forte capaz de desenvolver inovação”, destacou.