Fruto da Juçara (Foto: Gabriel March)

Juçara se torna alternativa econômica na Mata Atlântica

Projeto no Paraná une gastronomia e conservação ambiental

A palmeira juçara, estrela da Mata Atlântica paranaense, está deixando o passado de extração ilegal para trás e brilhando nos pratos de chefs e produtores locais. Pequeno, roxo e extremamente nutritivo, o fruto da espécie Euterpe edulis surge como a nova aposta da bioeconomia no litoral do Paraná, transformando a preservação ambiental em um negócio lucrativo e sofisticado.

Historicamente ameaçada pelo corte para a retirada do palmito, a juçara agora ganha fôlego com o aproveitamento de seu fruto. O projeto Paisagens Multifuncionais, realizado pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) e financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), lidera o movimento para consolidar o uso sustentável da espécie.

Segundo Rodrigo Condé, coordenador de projetos da SPVS, o fruto tem potencial para ser o carro-chefe da região. A estratégia é simples: cultivar a palmeira em sistemas agroflorestais, garantindo renda aos pequenos agricultores e mantendo a floresta em pé.

Polpa de Juçara (Foto: Gabriel Marchi)

Do drink sofisticado à bala de banana

A versatilidade da juçara impressiona. Na gastronomia, ela já aparece em pães, bolos, molhos para peixes e até em criações ousadas no setor de bebidas. O barista e influenciador Léo Oliva tem explorado as notas da fruta em drinks, comparando sua estrutura de taninos e acidez à de vinhos e espumantes.

Em Antonina, o tradicional mercado de balas de banana também se rendeu ao “ouro roxo”. Maristela Mendes, fundadora da Bananina, aceitou o desafio de criar uma versão que mistura a fruta nativa com o doce clássico da região. Para ela, o ingrediente agrega valor comercial e ajuda a incluir famílias de agricultores na cadeia produtiva.

O lucro da preservação

Os números explicam por que manter a palmeira viva é o melhor negócio. Enquanto o corte ilegal rende cerca de R$ 10 ao extrativista e destrói uma planta que leva oito anos para crescer, o quilo da polpa processada pode atingir R$ 40.

Phablo Bittencourt, do Instituto Juçara, destaca que o manejo do fruto permite exploração por décadas, sem os riscos e a baixa rentabilidade do mercado ilegal. Antonio Ozaki, conhecido como Tiba, da cooperativa ASPRAN, reforça que o trabalho é pioneiro no estado e serve como um escudo para o bioma.

Para sustentar esse crescimento, uma cozinha laboratório foi instalada em Antonina para realizar estudos e treinamentos. Para a agrofloresteira Rayen Mourão, o espaço é fundamental para profissionalizar o manejo de alimentos nativos.

O esforço faz parte de um investimento de R$ 110 milhões ao longo de dez anos pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, que utiliza recursos de um acordo judicial para transformar passivos ambientais em conservação ativa.

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