Os potes herméticos de plástico são ferramentas indispensáveis na rotina de qualquer cozinha moderna. Eles conservam sobras, organizam a geladeira, facilitam o transporte de marmitas para o trabalho e evitam o desperdício alimentar. No entanto, o plástico possui uma falha química que enlouquece qualquer pessoa na hora de lavar a louça: ele absorve manchas e cheiros de forma implacável. Sabe aquele estojo maravilhoso onde você guardou sobras de feijoada com bastante alho, cebola e condimentos fortes? Ou aquele recipiente onde ficou guardado um generoso pedaço de peixe assado? Você o esvazia, lava com água fervente, esfrega meia garrafa de detergente usando o lado mais áspero da esponja e o deixa secando no escorredor. No dia seguinte, ao abrir a tampa limpa para guardar uma salada de frutas fresca, você é recebido por uma lufada insuportável de odor de cebola velha que impregna no seu nariz. O recipiente parece fisicamente limpo, mas microscopicamente, ele está contaminado por compostos orgânicos voláteis (VOCs). Antes que você jogue fora aquele seu conjunto de potes importados que custou caro, existe um truque passado de geração em geração que utiliza um material improvável para realizar uma limpeza a seco surpreendente.
A física dos polímeros: Por que a água não funciona?
O motivo pelo qual o sabão e a água quente falham miseravelmente em tirar o mau cheiro reside na estrutura física dos polímeros de plástico (como o polipropileno, o material mais usado nesses utensílios). Ao contrário do vidro ou da cerâmica vitrificada, o plástico não possui uma superfície perfeitamente lisa e maciça. Microscopicamente, o plástico é um material altamente poroso. Ele se expande ligeiramente sob calor (como quando você coloca o molho de tomate ainda quente dentro do pote). Quando isso acontece, as moléculas de gordura, pigmentos alimentares (como o vermelho do tomate ou o amarelo da cúrcuma) e os óleos essenciais que carregam os cheiros do alho e da cebola se infiltram nesses minúsculos poros e ficam encapsulados quando o material esfria. O detergente limpa a superfície lisa, mas as gotículas de sabão são grandes demais para entrar nos poros e arrancar o cheiro encapsulado. Precisamos de um elemento de absorção molecular e de desidratação contínua para “sugar” esse odor para fora, sem a ajuda da água.
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A ciência do carbono e o papel jornal
O salvador da sua despensa chega na forma das páginas da edição de ontem do seu jornal local. Embora pareça um truque de dona de casa supersticiosa, existe uma razão científica rigorosa por trás do funcionamento do papel jornal como desodorizador. O papel de jornal não é tratado com os mesmos vernizes selantes ou coberturas de gesso que o papel sulfite de impressora ou o papel de revista de alta qualidade possuem. É uma fibra de celulose bruta, seca e extremamente absorvente. Mas a mágica real está na tinta tipográfica. As tintas pretas clássicas de jornal contêm grandes quantidades de pigmento negro de fumo, que é essencialmente carbono particulado muito semelhante à estrutura do carvão ativado. O carbono puro possui propriedades adsortivas monumentais (adsortivo com “d”, um processo onde as moléculas de gás do mau cheiro se grudam magneticamente na superfície sólida do carbono). Ou seja, as páginas do jornal funcionam como milhares de minúsculas esponjas químicas prontas para sequestrar o gás de cebola e peixe que está preso nos poros do pote de plástico.
O passo a passo da desodorização a seco
Para executar essa técnica, o pote deve estar perfeitamente seco. Não adianta fazer com ele úmido, pois a água fechará os poros do papel e anulará o efeito de absorção dos gases.
- O preparo do material: Pegue três ou quatro folhas inteiras de jornal (dê preferência para cadernos antigos com bastante texto e tinta preta, evitando páginas altamente coloridas com propagandas brilhantes).
- A maceração física: Amasse cada página de jornal individualmente formando grandes bolas soltas. Amassar o papel é vital para quebrar a fibra da celulose, expor mais tinta de carbono e criar bolsas de ar que facilitarão a captura dos odores.
- A asfixia do mau cheiro: Coloque essas bolas amassadas de jornal dentro do pote de plástico malcheiroso. Pressione as bolas levemente até que o recipiente fique totalmente preenchido.
- A vedação estanque: Coloque a tampa original do pote e trave bem. É muito importante que o pote esteja selado para que os compostos voláteis liberados pelo plástico não escapem para o ambiente, sendo forçados a migrar para dentro do papel jornal.
- O tempo de quarentena: Esqueça o pote em um armário escuro e seco. O processo de adsorção química é lento e gradativo. Deixe o recipiente selado com o jornal por um período mínimo de 48 horas a 72 horas (dois a três dias inteiros).
- A liberação e higienização final: Após o período estipulado, abra o recipiente. Retire o papel jornal e descarte-o imediatamente (se você cheirar a bola de papel, sentirá que todo o fedor da comida migrou para lá). Lave o pote de plástico uma última vez com detergente e água corrente apenas para retirar alguma fuligem invisível da tinta. Quando secar, o pote estará com o cheiro original de plástico novo, totalmente inodoro!
Dicas alternativas e prevenção contínua
Se você não recebe mais jornais impressos em casa, existe uma alternativa natural muito eficaz: a borra de café. O princípio é idêntico (o café seco é uma matéria orgânica torrada rica em carbono que suga odores). Basta colocar duas colheres de borra de café totalmente seca dentro do pote, selar e esperar dois dias. E para prevenir que o problema se repita no futuro: evite guardar sobras de comida ainda quentes em potes de plástico. Espere que o alimento atinja a temperatura ambiente na panela antes de transferi-lo para o recipiente, minimizando a dilatação dos poros do polímero.