O terceiro dia de Rock in Rio, marcado pela chuva neste domingo (6), deveria ter como foco principal o line-up pop encabeçado por Calvin Harris, Black Eyed Peas e Ne-Yo. No entanto, a negligência com a segurança do público roubou a cena.
O ator João Victor Gonçalves, de 24 anos, conhecido pelo papel de Mau Mau em “Quem Ama Cuida”, foi vítima de hostilização e assédio ao chegar à Cidade do Rock.
Diante de um crime de intolerância na sua porta, a atitude do festival foi, na prática, cruzar os braços.
A desculpa da organização
Em vez de assumir a responsabilidade pela integridade de quem consome e frequenta o evento, a organização optou por uma saída burocrática. Em nota, o festival afirmou que o episódio ocorreu “além das áreas do perímetro de segurança coberto pelo festival”.
Com isso, o evento demonstra possuir equipe de segurança privada internamente, mas lava as mãos sobre o trajeto imediato do público nas áreas públicas adjacentes, repassando o problema aos órgãos estatais. Apesar de pregar que condutas de assédio são incompatíveis com seus valores e de prometer um “ambiente diverso e inclusivo”, a falta de ação prática e de acolhimento à vítima do lado de fora esvazia totalmente o discurso de marketing da Cidade do Rock. A única solução oferecida pela organização foi reforçar a recomendação para que o público utilize transportes oficiais, como o BRT, numa clara tentativa de eximir o festival de qualquer falha na logística de acesso.
Polícia na investigação
A gravidade do ataque contra João Victor Gonçalves foi tamanha que não passou despercebida pelas autoridades, mesmo com a inércia do evento. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) da Polícia Civil tomou conhecimento do episódio e decidiu abrir uma investigação por conta própria, mesmo sem o registro formal de ocorrência no primeiro momento.
Enquanto o evento se esconde atrás de ações de conscientização e áreas de pluralidade internas, a realidade do lado de fora das catracas mostra que o respeito, tratado pela marca como “inegociável”, ainda esbarra na falta de segurança real para quem tenta apenas curtir os shows.