Mercado automotivo (Foto: Freepik)

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Pintura automotiva vira centro de lucro e tecnologia na Indústria 4.0

Tiago Lima detalha como automação e ESG transformaram o acabamento em ciência exata nas fábricas

No ecossistema de uma montadora, o brilho da lataria costuma ser o último detalhe observado pelo consumidor final. No entanto, nos bastidores da chamada Indústria 4.0, a etapa de pintura se consolidou como o processo mais custoso, complexo e decisivo para a viabilidade econômica de um veículo. O que antes era tratado meramente como “acabamento” tornou-se um campo de batalha dominado por dados, robótica avançada e rigorosas métricas de ESG.

O setor de pintura industrial representa o maior consumo de energia e o impacto financeiro mais pesado dentro de uma planta automotiva. Qualquer oscilação mínima, seja uma variação na umidade do ar ou um erro de milissegundos na trajetória de um braço robótico, pode comprometer o OEE (Eficiência Global do Equipamento) e gerar o temido scrap (sucata).

“Um erro de programação não estraga apenas uma peça; ele pode paralisar toda a cadeia de fornecimento just-in-time de uma montadora”, alerta Tiago Lima, especialista em processos de pintura com 19 anos de experiência em gigantes como Audi, BMW e Mercedes-Benz. Para ele, a pintura é o coração estratégico da produção: falhas nesse setor fazem o lucro da unidade evaporar.

A diferença entre um carro popular e um veículo de luxo ultrapassa a barreira da marca. Segundo Lima, o segredo reside na integração matemática de três pilares técnicos: calibração (precisão absoluta), trajetória (a coreografia do robô em ângulo e velocidade) e parametrização (controle fino de vazão e carga eletrostática).

“Não existe pintura premium sem a integração perfeita entre calibração, trajetória e parametrização”, afirma o especialista.

A transição do trabalho manual para o robotizado também impacta diretamente a sustentabilidade. Enquanto a pintura manual possui uma eficiência de transferência — a tinta que realmente adere à peça — em torno de 50%, os sistemas robotizados de ponta atingem entre 80% e 85%. Essa precisão reduz drasticamente o desperdício de tinta dispersa no ar (overspray), resultando em menos filtros saturados e menor descarte de resíduos químicos.

Cenário automotivo no Brasil

A pintura automotiva entrou na era digital. O desenvolvimento ocorre antes mesmo de o robô tocar na peça, por meio de Programação Offline (OLP) e Gêmeos Digitais. O uso de Machine Learning e visão computacional permite ajustes em tempo real nas linhas de pintura, antecipando falhas. Estudos da consultoria MarketsandMarkets projetam que o uso de IA na indústria automotiva crescerá mais de 20% ao ano até 2030, com o setor de pintura liderando a absorção dessa tecnologia.

No quesito ambiental, a otimização reduz a emissão de Compostos Orgânicos Voláteis (VOCs). “Cada micrômetro de película economizado é impacto ambiental reduzido”, pontua Tiago Lima. Além disso, a automação retira o ser humano de ambientes insalubres, elevando a segurança ocupacional.

Apesar dos avanços globais, o Brasil ainda opera com um atraso tecnológico estimado entre 2 e 7 anos em comparação a polos como Coreia do Sul, Alemanha e China. Dados da Federação Internacional de Robótica indicam que a Coreia do Sul possui mais de 1.000 robôs para cada 10 mil trabalhadores, enquanto o Brasil ainda luta para modernizar seu parque fabril. Contudo, a pressão das matrizes globais por metas de descarbonização tem acelerado a modernização das plantas nacionais.

O desafio atual, no entanto, é a escassez de capital humano. Existe uma falta global de “estrategistas de processo” — profissionais capazes de operar na interseção entre tecnologia, química e negócios. Relatórios de mercado apontam que a digitalização do chão de fábrica é o único caminho para a sobrevivência industrial, com a pintura liderando essa corrida por eficiência.

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